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O Argumento da Alfinetada

Utilitarismo Negativo

Uma consequência contraintuitiva do utilitarismo negativo (UN) é que ele parece acarretar a destruição do mundo, em vez de permitir que suas tristezas continuem. Se a destruição pudesse ser realizada sem dor, então um utilitarista negativo é logicamente obrigado a aceitar essa consequência. Nenhum montante de felicidade, o utilitarista negativo poderia argumentar, pode superar os horrores de Auschwitz, ou as tragédias recorrentes da vida pessoal.

No entanto, o planejamento e a implementação da extinção de toda a vida senciente não poderiam ser realizados sem dor. Mesmo contemplar tal empreendimento provocaria aflição. Assim, um utilitarista negativo não é obrigado a defender a solução apocalíptica. Ela ou ele ainda poderia acreditar privadamente que teria sido melhor se o mundo jamais tivesse existido. Essa é uma outra questão.

Um desafio mais sério para a coerência intelectual do UN é o Argumento da Alfinetada. Seria realmente melhor que a vida nunca tivesse surgido se a única experiência desagradável que ocorreria fosse uma alfinetada? É certo que algumas dores são demasiado triviais para importar significativamente.

Um utilitarista negativo poderia responder que a dor de uma alfinetada é de uma natureza qualitativamente diferente da dor de, digamos, câncer ósseo, luto, tortura, ou das crueldades em massa do genocídio. Uma alfinetada, ou seu equivalente, não envolve sofrimento – com sua terrível bagagem de aflição emocional.

No entanto, esta resposta ao Argumento da Alfinetada parece ad hoc. Ela mina a pureza da ética do UN. Onde está o suposto ponto de corte? Quando a dor se torna sofrimento real? Quanta dor/sofrimento leve é moralmente permissível? Quem deve determinar esses limites? Se evitar a dor ou o sofrimento é contabilizado como moralmente mais importante do que a felicidade, mas a felicidade não é inteiramente contabilizada como moralmente negligenciável, então como podem as suas importâncias relativas serem quantificadas? Como o bem-estar e o sofrimento podem ser comensurados? Que tipo de métrica deve ser usada? O destino do mundo deveria repousar num ponto de corte arbitrário, ou ao menos convencional, no eixo prazer-dor?

O utilitarista negativo poderia responder que essa formulação do problema é enganosa. Não vivemos em um mundo imaginário onde apenas uma alfinetada, dores menores ou apenas sofrimento “leve” existem. No mundo real, horrores terríveis, assim como mal-estares banais, ocorrem todos os dias. A intensidade do sofrimento às vezes é tão terrível que suas vítimas estão dispostas a se destruir para dar fim aos seus tormentos. A cada ano, cerca de 800.000 pessoas em todo planeta, matam-se enquanto presas a um desespero suicida. Dezenas de milhões estão gravemente deprimidas ou sofrem de dor neuropática crônica. Apenas para contrastar, as convenções gentis de um seminário de ética na filosofia acadêmica, ou as tecnicalidades eruditas de um artigo de jornal, simplesmente não conseguem pôr-se a par da enormidade do que está em jogo. Falar de uma “alfinetada” é trivializar a postura ética do UN.

Essa acusação pode ser verdade. Não obstante, não é claro como a coerência intelectual do UN pode ser restaurada. Versões menos austeras do UN são todas intelectualmente bagunçadas. Variantes enfraquecidas do princípio podem capturar nossa intuição de que se livrar de um certo montante de sofrimento tem mais urgência moral do que acrescentar uma quantidade de felicidade “correspondente”, sem diminuir completamente o valor moral da felicidade. Isso soa mais plausível. Entretanto, sistemas éticos híbridos que dão prioridade ponderada ao alívio do sofrimento sobre a promoção da felicidade não mais incorporam o UN puro. Em teoria, o utilitarista negativo poderia fincar o pé e afirmar que mesmo uma alfinetada é demais. Mas aqui é o utilitarista negativo que arrisca trivializar a seriedade moral da ética do UN. Uma disposição declarada de sacrificar o mundo para evitar uma simples alfinetada, viola nossas mais profundas intuições morais.

Admitidamente, não está claro porque a intuição deveria ser um guia melhor em ética do que tem sido para a física ingênua [folk physics] ou para a psicologia popular [folk psychology]. Nossas intuições morais foram sistematicamente desviadas pela seleção natural em formas que tendem a maximizar a aptidão inclusiva de nossos genes. Assim, nossas intuições morais são “profundas” [“deep”] no sentido de serem fortemente sentidas em vez de bem fundamentadas, perspicazes ou profundas. Contudo, (quase) todos tratariam uma resposta intransigente ao Argumento da Alfinetada como uma reductio ad absurdum do UN estrito. De fato, a maioria dos filósofos tem reconhecido que qualquer quantidade ou intensidade de sofrimento [embora não necessariamente o seu próprio] é um preço que vale a pena ser pago pela preciosa dádiva da vida, pondo em questão a sanidade de qualquer pessoa que sugira o contrário. O problema aqui é que, enquanto (quase) todos nós já experimentamos a dor insignificante de uma alfineta, nosso juízo de que não poderia haver sofrimento tão insuportável que justificasse acabar com o mundo não é uma tese que estaríamos dispostos a investigar empiricamente. Tragicamente, a cada ano, milhares de pessoas que têm mais experiência mostram que elas discordam. Alguns tipos de sofrimento são tão atrozes que podem, literalmente, compelir o assentimento do UN – independentemente das concepções éticas que se tenha anteriormente.

A refutação clássica do UN, uma doutrina cujas implicações são toscamente acusadas de serem “perversas” e “absurdas”, está em R.N. Smart, ‘Negative utilitarianism’, Mind LXVII, 1958, pp. 542-3; ver também, J.J.C. Smart e B. Williams, Utilitarianism: For and Against, Cambridge UP: 1973, pp. 28-9.

Utilitarismo Negativo Direto versus Utilitarismo Negativo Indireto

O mundo não vai acabar tão cedo, seja indolormente ou de outra maneira. Seres humanos – ou nossos descentes pós-humanos imediatos – logo colonizarão o sistema solar e (possivelmente) mais além, tornando discutível a maioria dos cenários de catástrofes extremas. Impactos de asteróides, aquecimento global, pandemias virais, bioterrorismo ou uma guerra termonuclear podem causar imenso sofrimento e perdas de vidas; mas eles não vão matar todo mundo, nem mesmo tornar estéril o planeta natal. Tampouco a vida senciente terminará por meio do desígnio humano coletivo. Isso porque não é psicologicamente e sociologicamente realístico para os utilitaristas negativos esperar convencer a maioria das pessoas do UN ingênuo. Se uma recomendação política estiver fadada a fracassar, e se planejá-la apenas causaria mais sofrimento, então o utilitarista negativo sofisticado está eticamente obrigado a agir e argumentar contra ela. O suicídio coletivo global é impossível. Nenhuma “máquina do Juízo Final” [“doomsday device”] (provavelmente) jamais será construída. Assim, o utilitarista negativo equivocado que argumenta a favor de um niilismo compassivo indiscriminado está, na melhor das hipóteses, perdendo seu tempo. Ela ou ele também ignora as implicações políticas práticas do UN. Os amantes da vida sempre tenderão a se reproduzirem em maior número que os utilitaristas negativos, apenas porque machos alfa afirmadores da vida estão aptos a acumular mais poder, influência e maiores oportunidades de reprodução do que utilitaristas negativos tomados de angústia e deprimidos. Pessoas que acreditam no UN direto dificilmente podem ir adiante e se multiplicar, uma vez que a reprodução implica na criação de mais sofrimento. Assim, o utilitarismo negativo permanece entre os sistemas de crenças éticos mais raros do mundo. Algumas formas de “predisposição em favor do status quo” são inextirpáveis. Pode-se até esperar que a maioria dos defensores do UN seja erradicada do pool genético. Talvez não mais que algumas centenas – ou no máximo alguns milhares – de pessoas espalhadas por todo o globo atualmente reconhecem-se como adeptas do UN. Mas é improvável que elas jamais estarão efetivamente organizadas ou lideradas.

No entanto, à medida que a revolução biotecnológica se desenrola, é possível que o utilitarismo negativo prevaleça, embora sob uma descrição diferente. Três desenvolvimentos específicos são dignos de nota aqui.

Primeiro, nos próximos anos, é provável que os neurocientistas elucidem a via final comum do prazer no cérebro. Quando sua assinatura molecular for identificada, a felicidade poderá ser modulada, enriquecida, controlada e amplificada efetivamente sem limite; o prazer puro não mostra nenhuma tolerância fisiológica. Terapias para erradicar os substratos moleculares do desprazer provavelmente se seguirão também, permitindo vidas de alegria pura, ou ao menos gradientes de bem-estar adaptativo. Inicialmente, essas intervenções podem ser utilizadas por psiquiatras biológicos para tratar condições tais como a depressão refratária “resistente a antidepressivos”. Mas variedades cada vez mais ricas de “super-soma” estarão fadadas a vazar do mercado negro farmacêutico para o resto do mundo através da contracultura científica florescente. Seja qual for seu aspecto, a super-soma ou seus equivalentes, inevitavelmente demonstrar-se-ão extraordinariamente populares. A Internet expandirá vastamente o seu apelo internacional e os canais de distribuição. Hoje, uma objeção adequada ao uso da maioria dos estimulantes de humor recreacionais ilícitos, é que são ineficazes e autodestrutivos. Os euforizantes contemporâneos de efeito rápido ativam a esteira hedonista, e não a subvertem: drogas de rua normalmente dão origem a mais sofrimento, não menos. Mas o advento de elevadores de ânimo mais seguros, limpos e sustentáveis que “restabelecem” nossos termostatos emocionais evita essa objeção. Menos obviamente, o advento de empatógenos seguros e sustentáveis invalidará o argumento de que o consumo de drogas é inerentemente “egoísta”. Empatógenos racionalmente projetados e entactógenos prometem enriquecer a nossa concepção de saúde mental, autoconhecimento introspectivo e inteligência social. Reconhecidamente, falar hoje de drogas do prazer “seguras e sustentáveis” pode soar vazio, dadas as drogas sujas das ruas e as medicações elevadores de ânimo rudimentares atualmente disponíveis. O desempenho histórico da grande indústria farmacêutica na medicina psiquiátrica foi, na melhor das hipóteses, desigual. Pela mesma razão, mesmo os químicos clandestinos mais ilustrados, abriram uma Caixa de Pandora de surpresas. Contudo, a dor mental está destinada a tornar-se medicalizada, opcional e, talvez um dia, obsoleta.

Segundo, estamos à beira de uma revolução reprodutiva de “bebês projetados”. Nas próximas décadas, futuros pais, rotineiramente, começarão a escolher a composição genética e as personalidades de seus futuros filhos. Os alelos alternativos mais desagradáveis e as combinações alélicas legadas pela seleção natural serão, progressivamente, eliminadas do pool gênico, à medida que a evolução deixar de ser efetivamente aleatória e “cega”. Nossa trajetória evolutiva como uma espécie será moldada, em vez disso, por agentes quase-racionais. No futuro, novos genes projetados e combinações alélicas serão escolhidos por deliberada antecipação de seus prováveis efeitos comportamentais. Quando os pais de amanhã optarem por não ter filhos depressivos ou ansiosos, a maioria desses futuros pais poderá não ter nenhum sistema ético grandioso em mente, muito menos o UN universal. Mas, à medida que a revolução reprodutiva se espalha pelo globo, o resultado coletivo dos atos de escolhas individuais dos pais pode ser similar aos frutos desse grandioso projeto utópico. A grande maioria dos pais desejará ter filhos superinteligentes, felizes, bonitos e afetuosos. Por sua vez, seus filhos superinteligentes, felizes, bonitos e carinhosos, presumivelmente, vão querer ter seus próprios filhos melhorados – e com um padrão de saúde mental muito mais alto. Assim, o ponto de partida natural de nosso bem-estar emocional será elevado geneticamente, tanto individualmente quanto, estatisticamente, para a espécie (pós-) humana como um todo em evolução “não natural”. Os humanos mais antigos presos ao que herdaram biologicamente poderão optar pela terapia genética somática enquanto a medicina personalizada amadurece. Entrementes, a pressão seletiva contra os traços adaptativos mais desagradáveis em nosso passado darwiniano será intensa. Os análogos funcionais sutis da dor e da ansiedade, sob a forma de gradientes de bem-estar reduzido, (provavelmente) serão mantidos para preservar a nossa sensibilidade informativa de estímulos nocivos e sustentar a nossa visão crítica; mas as texturas do sofrimento bruto, como as compreendemos hoje, podem ser banidas da história evolutiva.

Terceiro, desenvolvimentos nas tecnologias de proteínas unicelulares em breve nos permitirão produzir “comida de laboratório” geneticamente modificada que seja ao menos tão saborosa quanto a carne de animais não-humanos intactos. Se assim for, o processo será presumivelmente escalonável de modo ilimitado. Crucialmente, essa “comida de laboratório” será mais barata. Dada a economia de mercado, em seguida, nesse cenário, a “indústria” da pecuária intensiva sofrerá um colapso mundial – ou ao menos será convertida em um modelo mais eficiente. Na verdade, há uma boa chance de testemunharmos o veganismo global na segunda metade do século. Os argumentos morais para uma dieta livre de crueldade vão parecer mais convincentes quando a sua aceitação não mais exigir a renúncia do gosto habitual de algumas de nossas comidas favoritas. Por outro lado, a Mãe Natureza, rubra nos dentes e nas garras, não desaparecerá tão rapidamente. No entanto, no ritmo atual de destruição de habitats, nenhum dos grandes mamíferos sobreviverá na selva ao final deste século. Vestígios da antiga ordem podem permanecer em outros lugares do mundo vivo; mas as formas residuais do sofrimento, se houver, que serão permitidas em nossos parques de animais selvagens ou nos oceanos profundos, são muito incertas. Se concluirmos que os estados desagradáveis de consciência são moralmente inaceitáveis, então a engenharia genética, a computação quântica e a nanorobótica poderiam ser aproveitadas para redesenhar o ecossistema global e reescrever o genoma dos vertebrados. O crescimento exponencial do poder da computação para executar simulações complexas pode finalmente tornar trivial essa transformação do ecossistema. Uma civilização tecnológica e eticamente avançada pode erradicar o sofrimento em toda a vida senciente.

* * *

Quase não é preciso salientar que os três cenários esboçados acima são especulativos. Não menos especulativa é a previsão bioconservadora de que optaremos por manter o sofrimento indefinidamente.

O que quer que o futuro nos reserve, a ética do UN provavelmente ainda falhará em repercutir na maioria esmagadora da população – especialmente depois do nosso bem-estar emocional aumentar, à medida que a adoção de tecnologias de melhoramento se intensificar. Assim, talvez a maneira mais eficaz para um utilitarista negativo promover seus valores éticos não é fazer nenhuma forma de proselitismo sob esse rótulo. Em vez disso, o utilitarista negativo poderia achar instrumentalmente racional apoiar publicamente os valores “positivos” dos utilitaristas clássicos ordinários, utilitaristas preferencialistas/consequencialistas preferencialistas, e da comunidade muito mais ampla dos (na sua maior parte) não-utilitaristas benevolentes, que compartilham uma aversão ao “sofrimento” desnecessário. A abordagem indireta do UN provavelmente produzirá melhores resultados. Somente através de nossos esforços para também promover fins “positivos”, e campanhas pelo maior bem-estar individual, é que a ética do UN possivelmente será realizada na prática.

Se o projeto abolicionista for bem-sucedido, seja qual for sua escala de tempo final, o utilitarista negativo deveria ficar moralmente satisfeito com esse resultado? Em um sentido importante, sim: ela/ele terá executado todas as suas responsabilidades morais. Se essa transição marcante na história da vida na Terra ocorrer, ela será uma revolução muito mais importante e profunda do que qualquer outro até então. Além disso, ao contrário do utilitarismo positivo, ou do assim chamado utilitarismo de preferências – nenhum dos quais jamais poderá ser completamente realizado – o UN parece realizável na íntegra.

O contraste é instrutivo. De acordo com o cálculo felicífico do utilitarismo positivo, a biotecnologia avançada exige a fabricação molecular de felicidade/valor em uma escala prodigiosa, não menor do que a erradicação do sofrimento. De fato, a iminente revolução tecnológica compromete eticamente o utilitarista “hedonista” clássico com a criação de centros de prazer hipertrofiados que geram níveis de bem-estar emocional em ordens de magnitude mais intensas do que qualquer coisa acessível hoje. É difícil expressar esta sugestão de modo sério e sem sensacionalismo. Essa aplicação revolucionária da ética utilitarista clássica é uma consequência que seus criadores jamais poderiam ter antecipado. Bentham e seus contemporâneos presumiram que o cálculo felicífico seria mais proveitoso se aplicado através de uma reforma legislativa e sócio-política.

Olhando para o futuro, teoricamente qual seria o máximo de bem-estar/felicidade/prazer individual? Os cientistas do prazer não sabem. Presumivelmente é difícil para sistemas nervosos orgânicos sustentar sucessivos estados de coerência quântica “quentes” além de um determinado tamanho e de duração fugaz antes da decoerência termal induzida pelo ambiente estabelecer-se, eliminando uma fenomenologia de centros de prazer do tamanho de Júpiter. Mas em nosso estado atual de ignorância, as teorias da mecânica quântica sobre limites superiores da unidade de consciência são inevitavelmente especulativas. Conjecturas mais audaciosas acerca de qual é o máximo teórico de prazer/valor no cosmos não serão buscadas aqui.

Em contrapartida, o utilitarismo negativo não estimula uma ampliação sem fim do nosso circuito de recompensa. Na prática, a maioria dos utilitaristas negativos provavelmente acharia essas discussões moralmente frívolas. Aqui ao menos, o UN está mais próximo do senso comum – e talvez da ética e da metafísica da Idade da Pedra. No entanto, há um sentido em que qualquer satisfação por parte do utilitarista negativo que vise à conclusão do projeto abolicionista está fora de lugar. Estritamente, a noção de que o sofrimento pode ser abolido repousa sobre uma concepção pré-científica do tempo. No cenário do “universo em bloco” da física atual, os horrores do mundo ocupam perpetuamente as suas coordenadas espaço-temporais. Todos os aqui-e-agoras existem [atemporalmente] e são igualmente reais. O sofrimento característico da vida primordial na Terra não irá desaparecer do espaço-tempo. O valor negativo intrínseco desse sofrimento é inextirpável. O sofrimento – talvez a agonia extrema além da nossa compreensão – também pode ser localizado em outras formas de vida inacessíveis, em outras partes do Multiverso. Pior, se os cenários de inflação eterna e caótica estiverem corretos, o aumento exponencial das centenas de bilhões de “universos compactos” deve gerar o crescimento exponencial do sofrimento também – e, possivelmente, de todo gênero de males que os seres humanos nem sequer conceitualizaram. Os otimistas podem apreciar o dito de Michael Faraday, “Nada é maravilhoso demais para ser verdade, se for consistente com as leis da natureza”; mas, por outro lado, nada é tão terrível que não possa existir, se for consistente com as leis da natureza também. Então o utilitarista negativo ainda poderia acreditar que teria sido melhor se nada existisse. Menos friamente, nesta vastidão do espaço-tempo que informalmente chamamos de “futuro”, é bem possível que para além do Século XXII, digamos, nenhum sofrimento existirá em nosso pequeno universo insular, ou se existir, será apenas em uma região de densidade infimamente baixa da função de onda universal. [para uma análise mais pessimista, ver Sofrimento no Multiverso.]

Então o que será do UN? Se os nossos descendentes geneticamente enriquecidos serão, por sua própria natureza, muito felizes, então é improvável que endossarão explicitamente um utilitarismo ético negativo, mesmo supondo que o seu esquema conceitual seja comensurável com o nosso. Psicologicamente, mentes super-saudáveis poderiam achar que é constitucionalmente impossível levar a sério o UN da era passada. A própria possibilidade do UN poderá estar cognitivamente bloqueada para eles. A consciência pós-darwiniana madura poderia se sentir autosugestionavelmente valiosa acima de qualquer outra coisa que podemos compreender hoje. De fato, a posteridade poderia desfrutar de padrões de saúde mental multidimensionais vitalícios maravilhosos demais para os conceitos atuais descreverem ou mesmo nomearem. Mas se o sofrimento de qualquer espécie, e até mesmo o mero desconforto de uma “alfinetada”, torna-se neuroquimicamente impossível – talvez substituído por gradientes informativos-teóricos de bem-estar – então o utilitarismo negativo em si terá se tornado irrelevante: uma curiosidade histórica redundante. Se assim for, trata-se de uma irrelevância que os utilitaristas contemporâneos deveriam receber bem.

Original Title: The Pinprick Argument: Negative Utilitarianism, broken symmetry and the fate of the world
Author: David Pearce (2005)
Translated by: Gabriel Garmendia da Trindade (2010) see too 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 & 10
Technical Review by: Rogério Passos Severo

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